Das inesgotáveis possibilidades do estudo da Linguística – uma das ciências mais complexas, apesar da aparente simplicidade –, talvez a mais me fascinante é a “Análise do Discurso”. Além de sua utilidade no campo específico das línguas, ela é de tremendo valor quando nos colocamos a investigar o que está implícito na fala de políticos, por exemplo.
Na área referida, muitos nomes se destacam. Peço licença a todos os outros para citar apenas um, o francês Michel Pêcheux.
Pêcheux foi o fundador da teoria que conecta "ideologia" e "linguagem": em outras palavras, ele foi o primeiro a teorizar sobre a materialização de um pensamento através das escolhas lexicais/gramaticais feitas por alguém. Para ele, o discurso era uma espécie de ponto de encontro das duas vertentes.
"Mas o que tudo isso tem a ver com Fórmula 1?", afinal. É que resolvemos, hoje, aplicar uma pequeníssima parcela da teoria de Pêcheux sobre o discurso de um jornalista pertencente à classe citada no último post.
Sempre antenados às informações sobre Ayrton Senna, em virtude dos 16 anos de sua morte não foi difícil constatarmos que a quantidade de matérias relacionadas ao piloto é enorme. Muitos usam da imagem do piloto para atrair leitores/espectadores/etc, seja pra louvar ou para pisar.
E o jornalista Ivan Capelli - da 'família' do Grande Prêmio - seguiu bem a segunda opção.
Já na
página inicial do blog há uma foto em tamanho grande de Ayrton Senna. Abaixo, à esquerda, há outra, de Michael Schumacher. Claro, hão de argumentar que "
isso acontece devido às atualizações, e sempre a matéria mais recente fica acima". Ótimo.
(Antes de continuar, é importante lembrar que o site GP, na edição de maio de sua nova revista virtual, resolveu prestar uma "homenagem" a Ayrton Senna, lembrando a data de sua morte: 16 desempenhos marcantes do piloto: 8 bons e 8 ruins - uma bela iniciativa falar de erros cometidos quando se recorda uma data especial, não? Sem contar que os comentários sobre as 'grandes' corridas foram sempre no sentido "porém, contudo, todavia, entretanto". Mas isso não vem ao caso, agora).
Aqui já podemos começar a pensar em Pêcheux. Ambas as frases têm quatro palavras. A primeira inicia-se com a preposição "pela". Tal palavra (qual "por" e "para") indica o(a) motiv(açã)o ou proposta de algo. Já "no" (em + o) indica lugar, situação. Portanto, a principal diferença que se nota é que enquanto a segunda frase apenas localiza a ação a ser discorrida, ficando neutra, a primeira assume uma postura defensiva, pois está escrevendo em razão de determinado objeto.
"
Humanização" X "
Limite": o substantivo 'humanização' vem do verbo 'humanizar', que significa 'tornar humano'. Obviamente, você só torna humano algo que não o é. Já 'limite', também um substantivo, em certos casos pode ser visto como

fronteira, marca (física ou imaginária) que separa dois pólos. Assim, tanto uma quanto outra palavra estão se referindo a alguma espécie de mudança ou transformação.
"Do" e "Da" (junção de "de" + artigo) são usadas para preceder os substantivos "ídolo" - palavra que pode ser também usada como adjetivo - e "legalidade" (substantivo, apenas). A palavra ídolo, em sua origem, era usada no campo religioso: lembremos que a Bíblia condena a existência de 'ídolos' do ínicio ao fim. Portanto, o "ídolo" é a materialização de algo que não é humano - como visto de ínício.
Já 'legalidade', que vem do adjetivo 'legal' (significando 'pertencente à lei'), se refere a coisas do mundo, dos humanos, do dia-a-dia, a coisas a que todos estão sujeitos.
Analisando ambas as frases, fica tudo muito claro: a sobre Schumacher quer mostrar que ele é, como eu e você, humano; a relativa a Senna quer dizer a mesma coisa: humano como nós (e o autor até explicita isso na gravata de seu texto).
"Ora, então são iguais". Aí é que vem a diferença.
Iremos usar apenas mais duas frases de cada texto, afinal, "é questão de espaço e também de tempo", como diria Lulu Santos. Não se trata de tirar citações do contexto, até porque os links estão aí e você pode lê-los na íntegra. É apenas para mostrar como a teoria de Pêcheux se aplica: a ideologia está sempre por trás das palavras.
No texto "humanizante" lemos: "Ayrton Senna é isso: um herói do esporte, tão grande quanto Oscar Schmidt ou Bernardinho. E tão humano quanto Diego Maradona." Já no "legalizante": "Como se vê, em nenhuma dessas ações Michael Schumacher e sua equipe foram deliberadamente maldosos. Apenas agiram no limite do regulamento."
Reparem: no texto que fala de Senna, Bernardinho e Oscar são usados como "grandes exemplos esportivos", e são vistos como 'iguais a Senna', para o autor. Já Maradona é usado como "exemplo de humanidade" - com sentido negativo -, seja por seu 'gol de mão' ou por seu envolvimento com drogas.
Sem questionar a grandeza pessoal de Oscar e Bernardinho, por que Maradona (responsável pelos únicos títulos da história do Napoli, campeão mundial com a Argentina praticamente sozinho, autor do maior gol da história das copas, etc) não é mencionado por seus feitos esportivos?
No caso de Schumacher, o autor, após citar diversos "erros" (como fez no texto de Senna, também) da carreira do piloto, trata de absolvê-lo de tais, afirmando que ele "não agiu com maldade", e chega a dizer, até, que tais atitudes "se não são nobres, não são de todo ilegais".
Resumindo: "Senna pode ter sido grandioso como os dois, mas também foi vil como o outro". "Schumacher pode ter feito algo pouco louvável, mas agiu nos limites". Perceberam a oposição?

E essa constante ideia de contraste nos dois textos (que seriam, juntos, mais ou menos como um músico que lança um "
álbum duplo", ou então o cineasta que filma as "
partes 1 e 2" de determinado filme) mostra-se inquestionável no final.
O texto sobre Senna termina assim: "Vencedor, campeão, gênio das pistas. Mas humano".
Já o de Schumacher, dessa forma: "Controverso, mas um piloto muito talentoso e inteligente".
Todo mundo sabe a função da conjunção "mas".
Certa vez, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (o grande 'Tom'), instado a falar sobre qual seria a diferença entre Nova York e o Rio de Janeiro, respondeu: "Lá [NY] é bom, mas é uma merda; aqui [RJ] é uma merda, mas é tão bom".