Há alguns meses, fizemos um post comentando comparações entre futebol e fórmula-1 (Massa comparou Schumacher a Pelé, e Briatore comparou o alemão a Van basten, ao passo que ambos disseram que Senna foi o Maradona das pistas), falando sobre os principais nomes dos respectivos esportes. Pois agora, após o 15º título de Grand Slam de Roger Federer - algumas vezes já mencionado neste blog - faremos um aprofundamento do tema anterior, tentando explorar mais algumas reflexões e compreensões que ele nos traz.
A idéia de escrever esse texto surgiu domingo, antes mesmo de Federer emplacar o recorde histórico: pela manhã, Jenson Button disse que ninguém, se não ele, é o melhor piloto da história do automobilismo mundial. É preciso comentar tamanha sandice? Mas, como uma vez falou o
jornalista Márcio Madeira da Cunha, "se alguém me disser que considera o de Cesaris o melhor da história, eu vou respeitar, desde que a pessoa tenha algum argumento para isso. Não precisa me convencer, basta que convença à própria pessoa".
jornalista Márcio Madeira da Cunha, "se alguém me disser que considera o de Cesaris o melhor da história, eu vou respeitar, desde que a pessoa tenha algum argumento para isso. Não precisa me convencer, basta que convença à própria pessoa".É bem por aí.
Bom, em sequência, vimos o tenista suíço atingir a marca máxima do seu esporte, superando o recorde anterior, que pertencia ao norte-americano Pete Sampras. Com isso, Federer passará a, por alguns bons anos, ser citado como o "maior da história". Na segunda-feira, jornais do mundo todo (e aí se inclui o "Jornal Nacional") entraram em comum acordo sobre o tenista usando os seguintes termos para descrevê-lo: "melhor da história", "acima de todos", "lendário", "o maior", etc.
Praticamente uma repetição do que ocorreu um mês atrás: quando venceu o torneio de Roland-Garros, e assim completou o Grand Slam de carreira (isto é, vencer todos os 4 principais torneios do circuito mundial), Federer já havia sido assim aclamado, pois empatara em números totais com Pete Sampras, mas havia um detalhe: o estadunidense jamais sagrou-se campeão no saibro.
E então retornamos ao âmago da "questão Tostines": Federer é o "maior de todos os tempos" porque ganhou mais, ou ganhou mais porque é o maior? A resposta não é simples. Primeiro temos de nos perguntar o seguinte: quando foi que Federer passou a despertar essa atenção, no sentido de ser aclamado como possivelmente o maior de todos? Foi somente no 15º Slam? Não. Foi quando empatou com Sampras? Também não. Foi antes disso. Muito antes.

Um exemplo concreto: Roger Federer já enfrentou Pete Sampras profissionalmente. Uma vez. Enquanto Roger estreava em Wimbledon, o americano defendia um tetracampeonato consecutivo, além de outras 3 vitórias, totalizando 7. E quem venceu foi... Federer.
Mas, é claro, isso não serve para mostrar quem foi o melhor entre os dois: enquanto um começava, o outro estava próximo da aposentadoria (Pete se retiraria das quadras no ano seguinte). Nenhum estava no auge. "E se...". Não sabemos.
O que sabemos, sim, é que naqueles dias Federer já era visto como alguém especial. Dois anos depois, ganharia em Wimbledon pela primeira vez e, num espaço de 25 torneios, venceu nada menos que 15. É um aproveitamento sobrenatural. Por isso (devido a essa constância), foi como que fácil perceber o que estava acontecendo e, inevitavelmente, aconteceria nesse domingo. Todo mundo já sabia. Inclusive, Sampras dera entrevistas nos idos de 2006-07 afirmando que "sabia que Federer iria quebrar sua marca" e, como quem prevê, dizia que "queria estar presente no dia em que isso acontecesse".
O mundo do tênis, de alguma forma, queria que Federer vencesse Andy Roddick nesse domingo. Não pela vitória em si - como quem tem preferência por este ou aquele time de futebol - mas porque sabia-se do momento histórico, de quão merecedor Federer era dele, e de como ele e o esporte se completam. Principalmente, de como ninguém, antes ou depois, elevou mais o nome do tênis do que o suíço. Em resumo: esse recorde veio apenas para coroar a carreira de Roger Federer: para uma carreira que antes já era aclamada, um recorde que era aguardado.
O leitor há de se perguntar, então, qual é exatamente o propósito desse post, uma vez que o blog é de Fórmula 1, e mesmo quando "fugimos" do tema - falando sobre futebol - havia uma relação direta, posto que um dos principais pilotos e um dos principais dirigentes da Fórmula 1 atual é que deram início ao tópico.Creio que o leitor deverá entender o propósito desse texto, e compreenderá o âmago da questão. No tênis, não foi necessário que Federer ganhasse tudo isso para finalmente poderem dizer que ele é o famigerado "greatest-ever". O que houve foi uma espécie de alívio (como quem diz "ufa, ainda bem que foi ele") com a quebra do recorde máximo por parte deste inigualável esportista. Houve um contentamento que fosse Federer a terminar por possuir a marca, e não alguém que não a merecesse. Quando Federer conquistou seu 10º Grand Slam (Aberto da Austrália de 2007), ele já estava consolidado nessa posição. Simplesmente, os relógios esperaram que nenhum imprevisto acontecesse e atrapalhasse, pois era fato que ele podia e iria estabelecer a nova marca.
No caso da Fórmula 1, infelizmente, os números se tornaram uma espécie de "verdade absoluta", quase que uma "prova documental" apresentada em tribunais (uma testemunha ocular, um álibi, etc); No tênis, ocorre uma livre constatação, apenas uma certeza de que Federer foi mesmo o maior dos tenistas.
Na Fórmula 1, a opinião pública e as lendas do esporte discordam frontalmente dos números; No tênis, o celebram. E quem o diz não são os suíços, mas o circuito do tênis mundial: dos seus rivais Rafael Nadal, Andy Roddick, Andy Murray, Juan Martín Del Potro e Novak Djokovic às lendas Pete Sampras (14), Bjorn Borg (11), Rod Laver (11), André Agassi (8), John McEnroe (7) e Roy Emerson (12), há um senso-comum na resposta à pergunta sobre o melhor deles todos: Roger Federer.


